Escrita

Como Escrever Nossos Melhores Contos

Usando o Quociente MICE

Então, tenho vasculhado a internet em busca de conselhos úteis e me deparei com um podcast incrível. Sério. Incrível! Esse você precisa conferir imediatamente, meu amigo escritor.

Dessa forma, vou passar para você alguns excelentes links, recursos e as notas básicas que fiz enquanto ouvia um episódio em particular desse podcast: Temporada 12 Episódio 32: Estruturando uma Peça Curta.

O Quociente MICE

Histórias são feitas de quatro elementos, misturados em diferentes proporções: Ambiente, Investigação, Personagens, Eventos. Esses elementos podem ajudar a determinar onde uma história começa e termina, além dos tipos de conflitos que as suas personagens enfrentam.

Não é necessário seguir os quatro ao mesmo tempo, afinal, estamos falando de uma estrutura que queremos usar em Contos, que são bastante limitados. Aqui, queremos apenas demonstrar alguns traços que você, escritor, pode focar, a depender do tipo de Conto que está buscando escrever.

Ambiente: foco no meio

A sua personagem chega a um novo lugar. Exemplo: Viagens de Gulliver

=> Luta para sair. Tenta sobreviver. Tenta navegar. => Sua personagem deixa o lugar. Note: ela não precisa voltar ao ponto inicial, necessariamente.

Investigação: foco em questionamentos

Sua personagem faz uma pergunta. Exemplo: Sherlock Holmes => Recebe uma informação falsa. Não consegue entender. Chega a um beco sem saída. => Responde a questão.

Personagem: destaque para a angústia

Sua personagem está infeliz com um aspecto pessoal próprio. Exemplo: O Apanhador no Campo de Centeio => Tenta mudar o jeito. Tenta romper o seu papel. Auto-aversão. => Tem novo entendimento de si. Note: isso é sobre conflitos internos.

Evento: movido pela ação

Algo perturba o status quo da sua personagem. Exemplo: Godzilla => Tenta consertar as coisas. Lutas. Perseguições. Explosões. Construções.

=> O status quo é solidificado. Pode ser o original ou um novo. Note: isso é sobre um conflito externo.

Se entender de informática, trate múltiplos elementos MICE como html, para que você possa começar e encerrar os elementos da atrativa em ordem inversa. Ex.: <m><c></c></m>

Esse episódio do Writing Excuses em questão, focou em como aplicar o Quociente MICE (digamos AIPE, nesse caso), de Orson Scott Card, em contos. Mary Robinette Kowal fez esse incrível infográfico para torná-lo mais fácil de entender.

Você pode comprar um poster dele (em inglês) no Zazzle.

Continuando, o quociente MICE é algo que o escritor de fantasia e ficção científica, Orson Scott Card, criou; e menções podem ser encontradas no seu livro Personagens e Pontos de Vista. MICE significa Milieu, Idea (Ask/Answer), Character, and Event. Ou seja, Ambiente, Ideia (pergunta/resposta), Personagem e Evento.

Agora que cobrimos as bases, aqui estão as minhas anotações:

Existem quatro elementos básicos em uma história, ou o MICE. Todas as histórias deveriam tê-los em variados níveis, mas, ao escrever um conto, você só terá mesmo um (ou dois, no máximo). Em qualquer história, um será muito mais claro e forte que o(s) outro(s).

Então, o próximo passo é destrinchar esses elementos ou tópicos. Mantenha em mente que essas estruturas podem (ou não) ser a sua grande e ardente questão, mas te ajudarão a direcionar a sua história.

Ambiente:

Esse elemento foca no mundo, ou na jornada. Em Writing Excuses, eles linkaram isso de modo que o começo é a entrada, e o fim a saída.

  • Exemplo: o protagonista entra em uma sala e o objetivo é sair dali, o conflito é a luta para isso, e o resultado é a saída em si. Ou a missão do protagonista (entra na missão, luta para conseguir/fazer alguma coisa, consegue/faz isso, termina, sai da missão). Para esse elemento, se pergunte: qual é o principal conflito?

Ideia (Pergunta/Resposta):

Seu foco é como um quebra-cabeças sendo explorado. Geralmente, há uma pergunta feita e o objetivo é encontrar a resposta. Algumas vezes, uma resposta pode ser encontrada no começo daquilo que levará a uma dúvida ainda maior, ou revelará que a pergunta original da sua personagem estava, de fato, errada. Geralmente as histórias de mistério se enquadram nessa categoria.

Personagem:

O foco das histórias de personagem é o conflito interno, focando em algum aspecto do protagonista com o qual ele mesmo não está satisfeito.

  • Exemplo: Aparência Pessoal, Ambição, Amor, Envelhecimento.

O conflito dentro do tópico focado em personagem é: algo o está impedindo de chegar a uma auto-definição que o satisfaça. O fim vem ou quando alcançam uma transição que os agrade ou quando concluem que não têm como mudar, como em “eu sou assim e devo me aceitar”.

Evento:

Aqui, o status quo externo é interrompido.

  • Exemplos são asteroides chegando à Terra, uma demissão, quase tudo relacionado a ação e aventura.

Essas histórias terminam quando um novo status quo ou outra solução são alcançados. Os tópicos de evento costumam introduzir o elemento personagem bem naturalmente.

  • Exemplo: o protagonista é demitido, o que pode mexer com a sua auto-definição. O conflito no tópico do evento e o que quer que esteja impedindo a personagem de atingir o seu novo status quo.

O infográfico acima é conciso e de grande ajuda!

Mais Conselhos

Espelhe o começo e o fim, o que te ajudará como escritor a garantir que a história está seguindo o rumo certo.

Contos de ficção, por exemplo, não devem tentar seguir mais de dois desses tópicos. Complicar demais uma história só a fará mais longa, e nós queremos contos curtos! Durante o episódio de Writing Excuses, eles deram como exemplo um episódio da série original de Star Trek (Jornada nas Estrelas), “Galileo 7”. Nele, Spock e um time vão a um planeta e precisam voltar para a nave, mas ficam presos (Ambiente). Ao longo do episódio, ele deve aprender (Personagem) que a lógica nem sempre funciona. Os roteiristas usaram uma conversa na nave ao final do episódio dizendo que o vulcano pensou sobre a lógica e aprendeu sobre intuição enquanto no planeta. Essa história teve dois dos tópicos, mas o foco principal foi no Ambiente, enquanto o Personagem foi secundário.

Para um bom uso dessa estrutura em contos, veja o Hugo de Mary Robinette Kowal chamado “Robô Macaco do Mal”.

Pense “sim”, “mas”, “não”, e “e” enquanto escreve qualquer coisa. O objetivo é criar obstáculos que façam a história mais animada e interessante.

  • A Princesa Prometida Exemplo: Sim, Inigo Montoya encontra o homem de seis dedos, mas os guardas ficam no caminho. Não, ele não o mata de imediato, e tem que persegui-lo por um salão. Sim, Inigo alcança, mas o homem de seis dedos bloqueia a porta. Não, ele não consegue abrir sozinho, e tem que pedir ajuda para o amigo. Sim, Fezzik derruba a porta, mas Inigo deve enfrentar o homem de seis dedos sozinho… e por aí vai.

A sua história não precisa ter tantos rodeios, pode ter um monte de “‘sim’, ‘mas’” enfileirados antes de chegar a um “‘não’, ‘e’” (e vice-versa), mas o ponto é fazer as coisas complicadas para o seu personagem.

Muitas vezes, nos contos, não tem problema NÃO fazer a grande pergunta e deixar o seu leitor perguntar por si só. Além disso, não é obrigatório responder a esse questionamento, podendo o autor deixar o leitor tentar resolver sozinho. Não se esqueça, porém, que isso só funciona em contos, não em romances; então eu diria para usar esse conselho com moderação.

Aqui estão algumas sugestões de tarefa dos autores no Writing Excuses:

  1. Pegue um elemento MICE para uma história e responda três perguntas:
    1. Onde a história começa?
    2. Qual é o maior conflito (de que tipo é esse conflito)?
    3. Onde a história termina?
  2. Faça o mesmo com um segundo elemento MICE.
  3. Acomode as respostas para essas perguntas:
    1. Isso se torna um esboço de seis frases para a sua história
    2. Por exemplo, se os seus elementos são investigação e personagem: comece com o primeiro, introduza o segundo, feche esse e, então, aquele.
  4. Faça de novo, mas inverta-os!
    1. personagem antes de investigação, então investigação. Feche investigação para depois fechar o elemento personagem.

Espero que essas notas e recursos extra sejam úteis na sua imersão para a escrita de contos e afins. Se tiver perguntas, não hesite em fazer. Se não pudermos responder, pelo menos tentaremos ajudar a encontrar a resposta!

Kamo Kronner

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