Artigo escrito por Joe Bunting e traduzido por Brinn
Na minha experiência como editor, os problemas de ponto de vista estão entre os principais erros cometidos pelos escritores iniciantes, o que acaba erodindo sua credibilidade e a confiança dos leitores. No entanto, ponto de vista não é um conceito fácil, já que há tantos entre os quais escolher: primeira pessoa, terceira pessoa limitada, terceira pessoa onisciente, segunda pessoa.
Afinal, o que isso significa? E como escolher o certo para a sua história?
Todas as histórias são escritas de um ponto de vista. Porém, quando o ponto de vista dá errado — e acredite em mim — isso pode acontecer com bastante frequência, você ameaça qualquer confiança que seus leitores poderiam ter em você. Não só isso, como também rompe a suspensão da descrença deles.
No entanto, é fácil dominar o ponto de vista se você usar o senso comum. Esse artigo irá definir o que é ponto de vista, analisar cada um dos principais POVs, explicar algumas de suas regras e, então, apontar os maiores erros nos quais os escritores acabam caindo ao lidar com cada ponto de vista.
O ponto de vista, ou POV, de uma história é a posição do narrador na descrição dos eventos e vem do termo em latim punctum visus, que significa literalmente ponto de visão. O ponto de vista é onde o escritor aponta a visão do leitor.
Note que o ponto de vista também possui uma segunda definição.
Em uma discussão, um debate ou na escrita não ficcional, o ponto de vista é uma opinião sobre um assunto. Esse não é o tipo de ponto de vista no qual nós iremos nos concentrar nesse artigo (apesar de ser útil para escritores de não ficção e, para mais informações, eu recomendo checar o princípio de imparcialidade da Wikipédia).
Eu gosto bastante da forma como os alemães se referem ao POV, no caso, gesichtspunkt, que pode ser traduzido como “ponto da face”, ou para onde sua face está apontada. Essa não é uma boa alusão visual para o que está envolvido em ponto de vista?
Note também que o ponto de vista às vezes pode ser chamado de “tipo de narrador”.
Por que o ponto de vista importa tanto?
Porque o ponto de vista filtra tudo na sua história. Tudo na sua história precisa vir de um ponto de vista.
O que significa que se você errar nele, toda a sua história será afetada.
Por exemplo, eu acabei de terminar de julgar uma competição de escrita para a The Write Practice Pro. Eu li e avaliei pessoalmente mais de noventa histórias e encontrei erros de ponto de vista em cerca de vinte por cento delas, inclusive em histórias que poderiam ter obtido uma classificação muito mais alta se seus autores não tivessem cometido os erros que nós iremos discutir em breve.
A pior parte é que esses erros são facilmente evitáveis se você estiver ciente deles. Porém, antes de mergulharmos nos erros de ponto de vista mais comuns, vamos primeiro ver quais são os quatro tipos de POVs.
Aqui estão os quatro tipos de POV primários na ficção:
Eu sei que você já deve ter visto e provavelmente até usado a maioria desses pontos de vista.
Nós iremos discutir cada um desses quatro tipos, usando exemplos para ver como eles afetam a sua história. Também veremos quais são as regras de cada um deles, mas primeiro, permita-me explicar qual é o maior erro que você não deve cometer com o ponto de vista.
Uma vez que você tenha escolhido o seu ponto de vista, você não pode mudá-lo.
Não comece a sua história em primeira pessoa e então mude para terceira pessoa. Não comece em terceira pessoa limitada e, então, abruptamente dê ao seu narrador completa onisciência.
A diretriz que eu aprendi na minha primeira aula de escrita criativa na faculdade é muito boa:
Estabeleça o ponto de vista nos primeiros dois parágrafos da sua história.
E, acima de tudo, evite mudar o seu ponto de vista. Se fizer isso, você ameaçará a confiança do seu leitor e pode acabar danificando a estrutura da sua história.
Tendo dito isso, recentemente eu terminei uma novel de 7.000 páginas chamada Worm, que usa dois pontos de vista — primeira pessoa com interlúdios em terceira pessoa limitada — de forma bem eficaz. A propósito, se você está procurando uma novel para ler nos próximos dois a seis meses, eu a recomendo bastante.
A primeira vez que o autor trocou de ponto de vista, eu quase perdi a minha confiança. No entanto, ele manteve a consistência desses dois POVs durante todas as 7.000 páginas e fez funcionar.
Independentemente de qual tenha sido a sua escolha de ponto de vista, seja consistente.
No ponto de vista em primeira pessoa, o narrador está na história e relata os eventos pelos quais ele ou ela está passando pessoalmente.
A forma mais simples de entender a primeira pessoa é que a narração irá usar pronomes em primeira pessoa como “eu”, “me” e “meu”.
Aqui está um exemplo de ponto de vista em primeira pessoa de Moby Dick, por Herman Melville:
Podes me chamar de Ismael. Há alguns anos — não importa quantos, precisamente – com pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem qualquer interesse particular na terra, decidi navegar um bocado e ver a parte aquática do mundo.
A primeira pessoa é um dos pontos de vista mais comuns encontrados na ficção. Se você nunca leu um livro em primeira pessoa, então você não tem lido direito.
O que torna esse ponto de vista interessante, e desafiador, é que todos os eventos na história são filtrados pelo narrador e explicados na sua própria voz única.
Isso significa que a narração em primeira pessoa é tanto tendenciosa quanto incompleta.
Outros exemplos de ponto de vista em primeira pessoa podem ser encontrados em livros como:
Se você nunca leu um livro em primeira pessoa, então você não tem lido direito.
Não existe esse negócio de primeira pessoa no cinema ou no teatro — apesar de locuções e entrevistas simuladas como em The Office ou Família Moderna fornecerem certo nível de narração em primeira pessoa na narração em terceira pessoa dos filmes e programas de televisão.
Inclusive, as primeiras novels foram escritas em primeira pessoa, inspiradas nos populares diários e autobiografias.
Narrações em primeira pessoa são feitas pela perspectiva de um único personagem por vez. Eles não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sendo assim, não tem todos os lados da história.
Eles estão contando sua história, não necessariamente a história.
Em novels em primeira pessoa, o leitor quase sempre simpatiza com o narrador, mesmo se ele for um anti-herói com graves defeitos.
Justamente por isso que nós amamos tanto a narrativa em primeira pessoa, porque ela é marcada pela personalidade do personagem, pela sua perspectiva única do mundo.
O uso mais extremo desse tipo de tendência é chamado de narrador não confiável.
Alguns escritores utilizam das limitações da narração em primeira pessoa para surpreender o leitor, uma técnica que é chamada de narrador não confiável. Você pode perceber esse tipo de narrador sendo usado quando você, como leitor ou plateia, descobre que não pode confiar no narrador.
Por exemplo, Garota Exemplar, de Gillian Flynn, coloca dois narradores não confiáveis um contra o outro. Cada um relata sua própria versão conflitante dos eventos, um por meio da típica narração e outro por meio de trechos de um diário.
Quando escrevem em primeira pessoa, esses sãos os dois principais erros que os escritores cometem:
Apesar de não ser muito usado na ficção — ele é mais comum em não ficção, letras de músicas e até em vídeo games — ainda pode ser útil entender o POV em segunda pessoa.
Nesse ponto de vista, o narrador relata as experiências usando os pronomes de segunda pessoa como “você” e “seu”. Assim você se torna o protagonista, você faz o enredo se mover e é o seu destino que determina a história.
Nós já fizemos um artigo sobre porque você deveria tentar escrever em segunda pessoa, mas, resumindo, nós gostamos da segunda pessoa porque isso:
Aqui está um exemplo do extraordinário bestseller Brilho da Noite, Cidade Grande de Jay Mclnerney (provavelmente o exemplo mais popular que utiliza o ponto de vista em segunda pessoa):
Você tem amigos que realmente se importam com você e falam a língua do seu eu interior. Você tem os evitado ultimamente. A sua alma está tão bagunçada quanto o seu apartamento e até arrumá-la um pouco, você não quer convidar ninguém para entrar.
O ponto de vista em segunda pessoa não é usado com muita frequência, porém ainda há alguns exemplos notáveis dele.
Alguns outros livros que usam o ponto de vista em segunda pessoa são:
Também há várias novels experimentais e contos que usam a segunda pessoa. Até mesmo escritores como William Faulkner, Nathaniel Hawthorne e Albert Camus já brincaram com esse estilo.
Nas peças de William Shakespeare, um personagem às vezes se virava na direção da plateia e falava diretamente com ela. Em Sonho de uma Noite de Verão, Puck diz:
Se nós sombras ofendemos, pense nisso e tudo bem. Vocês apenas dormiam enquanto essas visões viam, e esse tema fraco e vago não passou de um sonho.
Essa técnica de falar diretamente com a plateia ou o leitor é chamada de quebrar a quarta parede (sendo que as outras três são o cenário da história).
Pensando em outra perspectiva, é uma forma de o escritor brevemente usar a segunda pessoa no meio.
Isso é bem divertido! Você devia tentar.
Na terceira pessoa, o narrador está fora da história e relatando as experiências de um personagem.
O personagem central não é o narrador. Na verdade, o narrador nem faz parte da história.
A forma mais simples de compreender a narração em terceira pessoa é que ela usa os pronomes em terceira pessoa, como “ele/ela”, “dele/dela”, “eles/deles”.
Existem dois tipos desse ponto de vista:
O narrador tem acesso total a todos os pensamentos e experiências de todos os personagens da história.
Exemplos de Terceira Pessoa Onisciente:
O narrador só tem acesso, isso é, se de fato tiver algum, a apenas parte dos pensamentos e experiências dos personagens da história e muitas vezes, é a apenas de um personagem.
Aqui está um exemplo de terceira pessoa limitada em Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J.K. Rowling:
Uma brisa arrepiou as cercas bem cuidadas da rua dos Alfeneiros, silenciosas e quietas sob o negror do céu, o último lugar do mundo em que alguém esperaria que acontecessem coisas espantosas. Harry Potter virou-se dentro dos cobertores sem acordar. Sua mãozinha agarrou a carta ao lado, mas ele continuou a dormir, sem saber que era especial, sem saber que era famoso… Ele não podia saber que, neste mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo o país que erguiam os copos e diziam com vozes abafadas: — A Harry Potter: o menino que sobreviveu!
Alguns outros exemplos de narrativa em terceira pessoa limitada incluem:
A diferença entre a terceira pessoa limitada e a onisciente é bem confusa e até um pouco artificial.
A onisciência completa é rara nos livros — quase sempre ela é limitada de alguma forma — só porque não é muito agradável para a mente humana lidar com todos os pensamentos e emoções de várias pessoas ao mesmo tempo.
O mais importante a se considerar quando usar o ponto de vista em terceira pessoa é o seguinte:
O quão onisciente você pretende ser? O quão fundo você vai mergulhar na mente do seu personagem? Você irá revelar seus pensamentos mais profundos sempre que possível? Ou você, raramente, se é que pretende fazer isso em algum momento, vai se aprofundar nas suas emoções?
Para ver essa questão na prática, imagine um casal tendo uma briga.
Tina quer que Fred vá ao mercado comprar o coentro que ela esqueceu e que precisa para a refeição que está preparando. Fred está frustrado porque ela não pediu para ele pegar o coentro na volta do trabalho para casa, antes de ele ter colocado suas roupas de “ficar em casa” (no caso, a cueca samba-canção).
Se o narrador for completamente onisciente, você analisa as emoções tanto de Fred quanto de Tina a cada troca de palavras?
— Você quer comer? Se quiser, então você precisa ir comprar o coentro ao invés de ficar aí, agindo como um porco preguiçoso. — Tina disse, pensando, eu não acredito que eu me casei com esse babaca. Pelo menos naquela época ele ainda tinha um tanquinho, não essa barriga cabeluda.
— Dê o seu jeito, Tina. Eu estou cansado de correr até o mercado toda vez que você se esquece de alguma coisa — disse Fred. Ele sentia a raiva pulsando por toda a sua grande barriga.
Ir e voltar entre as emoções de vários personagens dessa forma pode se tornar cansativo para o leitor, em especial, se esse padrão se manter por várias páginas e com mais de dois personagens. Esse é um exemplo de um narrador onisciente que talvez esteja um pouco confortável demais explicando como funciona a mente de seus personagens.
“Mostre, não conte”, é o que nos dizem. Compartilhar todas as emoções de todos os seus personagens pode se tornar uma distração. Isso pode até destruir qualquer tensão que você tenha construído.
O drama requer mistério. Se o leitor souber as emoções de cada personagem o tempo todo, não haverá espaço para drama.
A forma como muitos editores e autores famosos lidam com isso é por mostrar os pensamentos e as emoções de apenas um personagem por cena (ou por capítulo).
George R.R. Martin, por exemplo, usa “personagens do ponto de vista”, um personagem do qual ele sempre tem acesso completo para compreender. Assim, ele só muda o ponto de vista para outro personagem após escrever um capítulo inteiro da perspectiva de um único personagem específico.
Quanto ao resto do elenco, ele permanece fora de suas cabeças.
Essa é uma sugestão eficaz, se não uma regra obrigatória e é o que eu costumo sugerir para qualquer autor iniciante que quer experimentar a narração em terceira pessoa. No geral, entretanto, o princípio de mostre, não conte deve ser o seu guia.
O maior erro que eu vejo os escritores constantemente cometerem na terceira pessoa são os saltos de perspectiva.
Quando você muda do ponto de vista de um personagem para o outro muito rápido, ou mergulha nas cabeças de muitos personagens ao mesmo tempo, você pode correr o risco de fazer o que os editores chamam de “saltos de perspectiva”.
Quando um narrador muda dos pensamentos de um personagem para o outro muito rápido, isso pode distrair o leitor e quebrar a intimidade com o personagem principal da cena.
Nós já escrevemos sobre como você pode evitar saltar de uma perspectiva para a outra o tempo todo, mas é uma boa ideia tentar evitar entrar na cabeça de mais de um personagem por cena ou por capítulo.
Aqui está um infográfico sobre ponto de vista que pode te ajudar a decidir qual POV usar na sua história:
Note que essas distâncias devem ser encaradas como aproximações e não cálculos precisos. Um narrador em terceira pessoa pode muito bem se aproximar muito mais do leitor do que um narrador em primeira pessoa.
O mais importante de tudo é que não existe um ponto de vista melhor. Todos esses pontos de vista são eficazes em vários tipos de histórias.
Se você acabou de começar, eu o encorajaria a começar ou pela primeira pessoa ou pela terceira pessoa limitada, porque elas são mais fáceis de entender.
No entanto, isso não deve impedi-lo de experimentar. Afinal, você só vai ficar confortável com os outros pontos de vista se tentar!
Independentemente de qual seja a sua escolha, seja consistente. Evite os erros que eu mencionei sobre cada ponto de vista.
E, acima de tudo, divirta-se!
E quanto a você? Quais desses quatro pontos de vista você já usou na sua escrita? Por que você os escolheu e o que você gosta neles? Compartilhe nos comentários.
Usando um ponto de vista que você nunca usou antes, escreva uma breve história sobre um adolescente que acabou de descobrir que ele ou ela tem superpoderes.
Certifique-se de evitar os erros de POV listados no artigo acima.
Escreva por quinze minutos. Quando o tempo acabar, poste o seu exercício nos comentários. Se você postar, por favor, lembre-se de dar feedback para os outros participantes.
Nós podemos aprender tanto dando feedback quanto ao escrever nossas próprias histórias!
Boa escrita!
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