Quando a gente entra no mundo da gramática, logo percebe que tem uma classe de palavras que rouba a cena: o verbo.
Ele é complexo, cheio de camadas e, às vezes, parece um verdadeiro quebra-cabeça. Diferente de outras partes da gramática, o verbo é como aquele personagem que aparece em todas as cenas importantes — ele dá as caras na fonologia, na semântica, na estilística e principalmente na sintaxe. E sim, às vezes dá vontade de perguntar: “Esse estudo tem fim?”
Spoiler: o verbo não é um figurante no palco da gramática. Ele é o protagonista que organiza o tempo, o aspecto, o modo e a forma das ações, estados e processos. Só que explicar tudo isso sem parecer uma matéria chata pode ser um desafio, e muita gente acaba simplificando tanto que o tema perde a graça ou fica confuso — um problemão para quem quer usar bem o verbo, principalmente na escrita de webnovels e outras histórias.
Este guia nasceu justamente para isso: trazer clareza e prática para um tema que parece complicado. Aqui, não vamos só falar de regras; vamos explorar como usar tempos verbais para dar vida às suas narrativas. Longe das regras, vamos aprender aqui quais são as influências que devemos considerar e quais são os efeitos que buscamos expressar através dos verbos.
Então, bora deixar de lado qualquer conceito que você tenha aprendido até aqui sobre verbos, pois eu vou mostrar para você um novo ângulo, uma nova forma de olhar sobre o assunto.
Desde que aprendemos gramática, somos apresentados à ideia de tempos verbais como algo simples e direto. Passado, presente e futuro — três tempos básicos, certo? Parece fácil, mas essa “simplicidade” esconde uma série de atalhos e meias-explicações que, na prática, acabam mais confundindo do que ajudando. É como assistir a um filme e só saber o começo, o meio e o fim, sem entender as cenas mais emocionantes ou os detalhes que dão profundidade à história.
Essa abordagem lembra o famoso “Mito do Grito do Ipiranga”. Lembra? Nos livros, aprendemos que Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil com a lendária frase “Independência ou Morte!”, e pronto. Heróico, simples, direto. Mas, quando crescemos, descobrimos que a verdade é muito mais complexa: havia intrigas, negociações e um contexto histórico que transforma o evento em algo muito mais rico e interessante. A história foi reduzida a um ponto fácil de lembrar, mas perdemos o quadro completo.
Com os tempos verbais, acontece a mesma coisa. Aprendemos que o presente é usado para ações que ocorrem no momento em que se fala, mas isso é só a ponta do iceberg. Na verdade, o presente pode ser muito mais versátil e complexo do que parece. Por exemplo, você já ouviu falar do presente histórico ou presente narrativo? Ele é usado para descrever eventos passados como se estivessem acontecendo agora, criando uma sensação de imersão e vivacidade.
Ou seja, o presente não é apenas sobre o “agora”. Ele pode ser uma ferramenta poderosa para trazer o passado à vida, como se o leitor estivesse vivenciando os eventos em tempo real. Mas, como tudo na escrita, o segredo está no equilíbrio. Usar o presente narrativo de forma exagerada pode tirar o impacto da narrativa, tornando-a monótona. O truque é saber quando e como usá-lo para maximizar seu efeito.
E isso não para por aí. Você provavelmente já ouviu falar de “pretérito perfeito” e “pretérito imperfeito”. Parece algo subjetivo e vago, não é? E ainda tem essa história de “perfeição”. Mas o que isso significa na prática?
Pense em duas frases: “Eu estudei” e “Eu estudava”. Ambas falam sobre o passado, certo? Mas cada uma pinta uma imagem completamente diferente. A primeira nos mostra algo que foi feito e concluído, enquanto a segunda nos coloca no meio de um processo, algo que era parte de uma rotina ou que acontecia enquanto outra coisa rolava. Essa diferença é pequena, mas fundamental. Na escrita, ela muda o ritmo, o tom e até a maneira como o leitor se conecta com o que está acontecendo.
Também já vi outro mito de que só há duas formas de contar uma história: no tempo passado e no tempo presente. Eu consigo sentir algumas pessoas se contorcendo ao eu afirmar categoricamente que isso é mais um mito. Convenhamos, escrevemos ficção e temos uma arma poderosa na mão chamada narrador, um ser tão incrível que consegue narrar para os leitores a qualquer momento da história, seja ele personagem ou não. Por que só existiriam 2 momentos em que ele poderia contar uma história?
Nos moldes clássicos, um narrador sempre conta uma história que já havia acontecido há tempos, mas a modernidade trouxe consigo todos os mecanismos de comunicação capazes de sanar isso. Um narrador pode contar uma história que aconteceu há anos, que aconteceu no dia anterior ou que aconteceu agorinha, agorinha mesmo.
Uma narração em tempo real na verdade se trata de narrar os eventos enquanto eles ocorrem de forma comitativa; o narrador conta, a princípio, a cada evento ocorrido ou a cada um conjunto de eventos. Há um ledo engano por parte de alguns autores de que narração em tempo real implique em tempo verbal no presente. Mito. O contrário também não é verdade, de que narração no passado signifique que o narrador já conhece a história toda.
A figura abaixo mostra duas formas de contar uma história, uma sendo com a narração ocorrendo ao mesmo passo (paralelamente) dos eventos e na outra a narração ocorre seguida de cada evento. O que estou dizendo é que a primeira forma é surrealista, ou seja, irreal e imprópria, uma forma de contar que não se faz, parece estranho e principalmente INCOMODA. Já a segunda forma é simples e direta, própria do tempo real.
Antes de mergulharmos nas aplicações práticas dos tempos verbais na sua história, precisamos desfazer esses mitos. Os tempos verbais não servem apenas para marcar quando algo aconteceu. Eles são a maneira de mostrar ao leitor como você quer que ele sinta o momento: como um fato distante, uma experiência fluida ou algo tão vivo que ele quase pode tocar. Entender isso é o primeiro passo para transformar os verbos nos seus aliados mais poderosos na escrita.
Se tem uma coisa que bagunça a cabeça de qualquer um ao explorar os tempos verbais é a ideia de que passado, presente e futuro são pontos bem separadas no tempo. Parece lógico, não? Passado é o que já foi há tempos, presente é o agora, e futuro é o que está por vir lá na frente. Mas aqui vai o choque: isso é mais mito do que verdade.
Vamos esclarecer: o passado não precisa ser algo remoto e cheio de poeira histórica. O futuro também não é, obrigatoriamente, um horizonte distante. E o presente? Esse é o mais escorregadio de todos — um momento fugaz, que existe apenas no instante da fala ou da ação.
Você já ouviu que o “passado” é algo encerrado, resolvido, como se história como um todo já chegou ao fim? Pois bem, pense em um evento que aconteceu um segundo atrás. Ele é tão passado quanto algo que rolou há milhares de anos. A diferença não está no tempo em si, mas no impacto emocional e na relevância que damos a esses eventos. Da mesma forma, o futuro não é exclusivamente uma promessa distante; pode ser o próximo instante, algo que ainda não aconteceu, mas está prestes a.
Em resumo, passado, presente e futuro são ideias muito mais fluidas do que a gramática escolar costuma nos ensinar.
Vamos ver o que ocorre no futuro. O futuro do presente projeta uma ação que ainda vai acontecer, enquanto o futuro do pretérito traz aquele ar de possibilidade ou consequência de algo que já foi. Aqui, não é sobre o “quão longe” no tempo, mas sim sobre como o narrador usa essas conjugações para criar expectativas e explorar consequências.
Sabe quem pode indicar o futuro também? O presente! Ele pode dar aquele toque de proximidade ou urgência, seja como futuro iminente (“Estou saindo agora mesmo”) ou como presente prospectivo, sugerindo algo que está prestes a acontecer (“Viajo amanhã”). Essa substituição dinâmica transforma o presente em uma ferramenta narrativa poderosa, permitindo que o autor jogue com a antecipação e a intensidade do momento.
É por isso que, na escrita de ficção, reconhecer a dinâmica de passado, presente e futuro é fundamental, senão você pode cometer a gafe de achar que, só porque está usando pretéritos, o narrador já sabe o final da história.
Esses tempos verbais não são só marcadores cronológicos; são ferramentas para mexer com a percepção do leitor e dar vida à narrativa. Quando você pára de enxergá-los como simples linhas do tempo ou, pior, pontos no tempo, abre uma porta para explorar nuances e criar experiências muito mais profundas na sua história.
Quem escreve sabe que os tempos verbais são muito mais do que simples “regras” para organizar eventos numa linha do tempo. Eles são como pincéis para pintar a narrativa, cada um oferecendo uma perspectiva diferente que vai além do clássico “antes”, “agora” e “depois”, que expliquei até então. Aqui, vamos explorar as dimensões mais profundas, que ajudam você, escritor, a transformar a linguagem em arte.
Primeiro, vem a dimensão da atitude comunicativa. Imagina que você tem dois mundos: o narrado e o comentado. No mundo narrado, o foco é contar a história – é aqui que o pretérito perfeito simples e o pretérito imperfeito brilham, como em “Ele chegou ontem”. Já no mundo comentado, você avalia ou descreve – “Ele costuma chegar cedo”. Esses mundos não são apenas sobre “o que aconteceu”, mas sobre como você, narrador, quer que o leitor enxergue os eventos.
Kamo do Céu! Como assim não tem PRESENTE no mundo narrado?!
Sentiu, né? Esse quadro mostra o uso comum da língua, principalmente da língua falada, e, sim, é exatamente isso, não há lugar para o presente na narração. Não existe narração no tempo verbal presente. Essa pode ser uma verdade que muita gente não quer ouvir, até porque nem percebeu que se trata de uma meia verdade, visto que estamos falando da linguagem comum.
Eu li uma tese sobre linguagem falada atual, de Maria Alice de Mello Fernandes, onde ela cita esse modelo do mundo narrado e mundo comentado proposto por Harald Weinrich, escritor e filólogo alemão. A minha conclusão sobre a tese é que, apesar da linguagem escrita filtrar muito da linguagem falada a favor da clareza e fluidez, muito dos usos soa mais claro e natural quando coincidem.
O fato é que, quando narramos um evento que presenciamos, fica tudo no passado, mesmo sendo o passado mais próximo do presente. E vamos continuar que esse assunto ainda vai dar muito pano pra manga.
Depois, temos a perspectiva comunicativa, que é como ajustar a lente de uma câmera. No tempo zero, o narrador é neutro e objetivo, como em “Ele vive na cidade”. Mas com perspectiva, você mexe no tempo – projetando avanços (“Ele viverá no campo”) ou retrocessos (“Ele viveu em outra cidade”). Essa flexibilidade é o que dá dinamismo à sua história.
Temos também o relevo narrativo. Aqui você cria camadas. No primeiro plano, está o que importa. No segundo plano, vem o contexto que dá cor à cena. Por exemplo, imagine uma cena de perseguição: “Ele disparou pela rua” (plano principal) enquanto “a chuva caía forte, tornando o chão escorregadio” (plano secundário). Alternar entre esses planos é o que diferencia uma história rígida de uma que flui com naturalidade.
Por outro lado, temos os níveis de tempo. No nível atual, tudo está conectado ao presente. Você usa o pretérito perfeito para olhar para trás (“Ele completou o trabalho”), o presente para o agora (“Ele trabalha agora”) e o futuro do presente para o que vem (“Ele completará o trabalho”). Já no nível inatual, você sai dessa linha principal: o pretérito mais-que-perfeito traz algo anterior ao passado (“Ele já havia terminado”), o pretérito imperfeito dá aquele ar de continuidade ou costume (“Ele trabalhava enquanto conversava”), e o futuro do pretérito joga possibilidades no ar (“Ele completaria se tivesse tempo”).
Como visto logo acima, além do nível temos as perspectivas primária e secundária de cada nível. A primária define o passado, presente e futuro como os pontos centrais da história. A secundária vem para refinar, trazendo fases mais detalhadas, como em “tenho feito” (um passado que ainda ressoa), “farei” (um futuro definido), ou “vou fazer” (aquele futuro que já parece palpável). Essas nuances criam ritmo e prendem o leitor, tornando sua narrativa inesquecível.
No fim das contas, os tempos verbais são suas ferramentas para mexer na percepção do leitor, para mostrar e esconder, para dar foco ou desfoque. Eles são sua paleta de cores em um quadro que você pinta com palavras.
Sabe aquela ideia genial que você teve para uma cena cheia de emoção e impacto? Pois bem, ela pode perder muito do seu brilho se o uso dos tempos e aspectos verbais não for bem trabalhado. Aspecto verbal parece um termo complicado, mas calma! Vamos descomplicar tudo e mostrar como essa ferramenta pode transformar sua narrativa em uma experiência, não uma tortura.
Pense no aspecto verbal como o filtro de uma câmera: ele define como o leitor percebe as ações na sua história. Você pode mostrar se a ação foi concluída, está em progresso, se repete ou é pontual. Tudo isso depende de como você usa os verbos e suas nuances.
Imagine a diferença entre “Ele abriu a porta” e “Ele estava abrindo a porta”. No primeiro caso, você dá a ideia de uma ação rápida e resolvida. No segundo, cria uma atmosfera de suspense e movimento. Essa diferença faz toda a diferença!.
Lembra da classificação dos verbos como transitivos e intransitivos? Aqui acontece quase a mesma coisa. Tudo vai depender do verbo que estará usando, levando em conta o lexema, o semantema e o morfema.
O lexema é o elemento lexical, ou seja, a unidade básica de significado que compõe uma palavra. No caso dos verbos, o lexema é a raiz que carrega o sentido principal da ação. No entanto, um mesmo lexema pode adquirir nuances diferentes dependendo do contexto em que é usado.
Aqui, o lexema “jogar” permanece o mesmo, mas o aspecto semântico varia conforme o contexto.
O semantema é o significado específico que uma palavra adquire em um contexto particular. No caso dos verbos, o semantema está diretamente ligado ao aspecto verbal, que define como a ação é percebida (concluída, em progresso, repetida, etc.).
O semantema, portanto, é o que define a percepção da ação, independentemente do lexema utilizado.
O morfema é a parte variável da palavra, responsável por transformar o lexema em uma forma verbal específica. Ele inclui desinências que indicam tempo, modo, número, pessoa e aspecto. No caso dos verbos, o morfema é essencial para expressar o aspecto verbal.
O morfema, portanto, é o que “ativa” o lexema como verbo, permitindo que ele se ajuste ao contexto gramatical e expresse o aspecto verbal desejado.
Agora, vamos explorar algumas categorias essenciais para que você domine o aspecto verbal como um mestre da escrita:
Esses aspectos permitem que você escolha o ritmo e o tom certos para cada cena.
Dominar o aspecto verbal é um passo essencial para tornar sua narrativa mais rica e impactante. Além de controlar o ritmo e a emoção, ele abre caminho para explorar nuances mais complexas, como as que surgem com o uso de locuções verbais. Esses elementos oferecem ainda mais ferramentas para aprofundar a conexão do leitor com sua história, como veremos a seguir.
Quando se fala em “aspecto verbal”, entra em cena uma dupla imbatível: os tempos compostos e as locuções verbais. Pera… Acho que são a mesma coisa. Eles não só dão uma mão para tornar sua escrita mais rica, como também ajudam a transmitir com exatidão como e quando ações acontecem. Bora mergulhar fundo nesse tema e aprender a usar essas ferramentas!
As locuções verbais são como aquele tempero especial que deixa sua cena mais saborosa. Elas combinam um verbo auxiliar com um infinitivo, gerúndio ou particípio de um verbo principal. Vamos aos exemplos práticos:
Aqui, o verbo auxiliar é o responsável pelas flexões (pessoa, tempo, etc.), enquanto o verbo principal é o coração da ação. Juntos, eles formam estruturas que deixam sua narrativa muito mais flexível e precisa.
Você quer destacar que algo terminou, está em andamento ou ainda vai acontecer? Aí entram os tempos compostos, formados com os verbos ter, haver e até mesmo ser e outros verbos. Olha só alguns exemplos poderosos:
Quer destacar a passividade? Aposte nos verbos ser, estar e ficar com o particípio. Exemplos:
Essas formas não apenas comunicam informação; elas evocam emoção e contexto, fazendo seu leitor se sentir parte da cena.
Esses caras ajudam a trazer nuances que simples palavras não conseguem transmitir. Confira:
Quer expressar possibilidade, necessidade ou vontade? Use os auxiliares modais:
Essas combinações adicionam camadas à sua história, tornando as interações entre personagens ou com o ambiente mais reais e dinâmicas.
Agora que você domina o básico sobre locuções verbais e formas compostas, chegou a hora de dar um passo adiante. Na próxima parte, vamos explorar como a “Visão e Fase do Verbo” pode transformar seu jeito de descrever ações e eventos. Pronto para abrir mais uma porta secreta para o mundo dos aspectos verbais? Então, vamos lá!
Você sabia que os verbos têm a capacidade de mostrar diferentes “ângulos” de uma ação e até o seu momento específico no tempo? Essa é a ideia por trás da visão e da fase do verbo. No mundo da escrita, isso pode ser um recurso incrível para dar mais profundidade à narrativa, sem o qual reinará a monotonia de ações completas.
Esse é um modelo proposto por Eugenio Coseriu, linguista romeno e pai da linguística integral e também de outras teorias que já expus aqui. A partir desse ponto vou apresentar a divisibilidade do verbo e da ação, que até então foram tratados como blocos de vários formatos e tamanho, porém indivisíveis.
A visão do verbo é como um zoom que decide se a ação será vista como um todo ou apenas em partes. Imagine um microscópio: você pode observar a estrutura completa de uma célula ou focar em um detalhe específico, como o núcleo ou as mitocôndrias. Da mesma forma, a visão do verbo permite que você mostre a ação de maneira ampla ou detalhada, dependendo do efeito que deseja criar. Aqui estão algumas formas de usar essa ideia:
Significa a própria consideração que se faz quando a ação é retratada entre dois pontos específicos, A (início da ação) e B (final da ação), diferente da visão simples que considera apenas um ponto (momento do evento). Esses pontos podem coincidir em um único momento (C, meio da ação), provando sua linearidade:
“Estive lendo o dia todo.”
Em português, essa ideia aparece com construções como:
Aqui, acompanhamos a ação em diferentes momentos. Isso pode trazer uma sensação de continuidade ou persistência:
E, se quiser um toque mais descritivo:
Essa é a ação que se projeta para o futuro, com aquele climão de expectativa:
Volte no tempo e mostre como a ação veio acontecendo até o presente:
Para ações que simplesmente continuam rolando:
Quer capturar toda a ação de uma vez? Use construções como:
A primeira forma é a mais usual, principalmente quando se quer narrar em tempo real ou contextualizar o momento exato de outro evento (estava escrevendo a carta quando…), sendo uma descrição temporal mais exata.
Já a segunda forma consegue acentuar a globalidade, olhando para a ação como um todo com impacto. Para dar mais ênfase, acrescente palavras como “decidido”, “rápido” ou “inesperado” (Pego a caneta e escrevo a carta decidido).
Em alguns casos, a primeira forma pode ser substituída pela forma simples (neutral), considerando o aspecto.
Deve-se tomar cuidado que a forma neutral carece de exatidão, não informando se trata de ação cursiva ou não e se é parcializante ou não, que dependendo do contexto pode gerar ambiguidade, assim como qualquer outra forma mais ampla, sendo portanto recomendável em casos de exceção, não como escolha padrão.
Agora, vamos falar de “fases”. Elas mostram onde exatamente a ação está em seu ciclo – no início, no meio ou no fim. Esse conceito é ótimo para dar ritmo às suas cenas!
A ação está prestes a começar:
Marque o início da ação com intensidade:
Dá pra fazer com construção aditiva também: Ele pegou e foi-se embora.
A ação está rolando no meio do caminho:
Quando a ação segue firme e forte:
Chegando ao fim da ação, dá para usar:
Essa construção combina muito bem com projeções: Mais tarde termino de escrever.
Para indicar o que vem logo após o término:
E o interessante aqui é que, mesmo no presente, essa forma indica algo que já aconteceu.
Uma dica útil é combinar visão e fase para enriquecer a narrativa. Algumas possibilidades:
Enquanto a visão compara o momento da fala com o momento de referência, a fase compara o momento do evento com o momento da fala. Combinando os 2, temos uma ampla noção verbal suficiente para descrever uma ação de qualquer ângulo.
Só por essa variedade de opções, os verbos são ferramentas incríveis para dar mais vida às suas histórias. Você ainda vai continuar a falar que só existem 2 tempos verbais para novels?
Na próxima seção, vamos explorar os Momentos Verbais, uma extensão ainda mais rica desse tema, que acabei de mencionar. Está pronto? NÃO, KAMO, PELO AMOR DE DEUS!!! Vamos nessa!
Em toda história, o tempo é uma das ferramentas mais poderosas para criar atmosfera, intensificar emoções e conduzir o leitor pelo enredo. Seja um salto dramático para o futuro ou um mergulho nostálgico no passado, compreender os momentos verbais pode transformar uma narrativa comum em algo extraordinário.
Então, vamos explorar como os tempos verbais operam, utilizando a perspectiva linguística de três momentos principais: o Momento da Fala (MF), o Momento do Evento (ME) e o Momento de Referência (MR). Parece complicado? Relaxa, vou te guiar com exemplos que fazem tudo parecer natural.
Cada tempo verbal tem uma forma de organizar esses três momentos, criando relações únicas. Veja como isso funciona:
A forma tradicional de pensar no tempo verbal costuma ser simplificada demais: considera-se apenas dois momentos — o da fala e o do evento. No entanto, o terceiro elemento, o Momento de Referência (MR), baseado na Teoria da Relatividade do Tempo de Albert Einstein, altera completamente a dinâmica narrativa, abrindo possibilidades que vão além da mera sequência de fatos.
Pense no MR como um ponto fixo que determina o enquadramento do tempo na história. Dependendo da escolha desse ponto, a percepção dos eventos pode mudar drasticamente. O narrador pode destacar o efeito de uma ação já concluída, prolongar um momento ou até criar tensão ao antecipar algo que ainda não aconteceu.
Essa perspectiva ampliada permite transformar a forma como a história é contada. Compare estas frases:
A escolha do MR é especialmente útil para manipular a tensão narrativa, revelar informações gradualmente e criar conexões emocionais com o leitor. E pra dizer a verdade, a existência de uma referência torna o observador mais humano e realista, não só lidando com os tempos simples, mas atribuindo uma missão de evocar sentimentos dos leitores. Quanto mais a ficção se assemelha à realidade, tirando as partes realmente chatas, mais conexão o leitor terá com a obra.
Com um melhor entendimento dos momentos verbais, o escritor pode explorar novas formas de estruturar a narrativa. Algumas estratégias incluem:
Dominar os momentos verbais significa entender que a relação entre passado, presente e futuro é flexível e manipulável. Usá-los estrategicamente permite que sua narrativa tenha mais profundidade e impacto emocional.
Pronto para explorar ainda mais possibilidades? Na próxima seção vamos mergulhar nos exemplos mais detalhados e aprender a manipular os efeitos dos tempos verbais para deixar suas histórias ainda mais envolventes!
Bem-vindo a um verdadeiro tesouro de possibilidades linguísticas! Nesta seção, exploraremos situações específicas em que você pode brincar com os momentos, aspectos, visões e fases dos verbos para enriquecer sua narrativa. Imagine ter uma paleta de tintas verbais que dão vida aos seus personagens, criam atmosferas marcantes e conduzem sua história com estilo.
Vamos direto ao ponto: aqui estão as situações mais comuns e como você pode usá-las para destacar sua escrita.
Isso aqui são só os principais. Na próxima seção, vamos abordar um assunto cujo foco será garantir que os tempos verbais escolhidos estejam perfeitamente alinhados com a lógica interna da sua narrativa.
Chegou a hora de falarmos de algo essencial: a consistência temporal verbal. Este nome pode soar como algo supercomplexo e difícil de executar, mas calma! Prometo que não é um bicho de sete cabeças. Trata-se, simplesmente, de como você articula os tempos verbais para criar uma narrativa coesa e coerente. Afinal, ninguém quer deixar o leitor perdido na linha do tempo, não é mesmo?
Mas, Kamo, minha novel se passa tudo no passado. Nem preciso estudar tanto. É só usar somente os pretéritos.
Tá maluco, mermão!? A essa altura do campeonato, você ainda insiste nisso? Mais do que repetir mecanicamente o mesmo tempo verbal – coisa que alguns teóricos até recomendam, mas que é uma baita duma armadilha – a verdadeira maestria está em calcular todos os pontos referenciais. Isso significa que você deve considerar:
E aqui vai a dica de ouro: consistência temporal verbal não é sinônimo de monotonia! Não é sobre usar o mesmo tempo verbal para todos os eventos, mas sobre fazer com que a transição entre eles seja clara e natural. Vamos entender melhor isso com exemplos.
Agora que você dominou a consistência temporal verbal, está pronto para dar ainda mais vida à sua narrativa! Sua história vai fluir de forma natural e prender o leitor do começo ao fim. Dito isso, na próxima seção, vamos explorar exemplos de todos os empregos dos tempos verbais para finalizar a nossa conversa.
Meus parabéns para você que chegou até aqui. Sou muito grato a você por me dar ouvidos (olhos na verdade), mas agora chegou a hora de vermos um por um os pormenores dos tempos verbais.
Neste artigo vou falar apenas do modo indicativo do verbo, visto que nosso foco é sobre o tempo verbal, não o modo. Se você está escrevendo uma história, vai perceber que o indicativo é a sua âncora na hora de situar os eventos no tempo e criar um fio condutor lógico para o leitor. Bora ver como funciona.
| Emprego | Descrição | Exemplo |
| Fato atual | Indica uma ação ou estado que se verifica ou que se prolonga até o momento da fala. | “Ele estuda para a prova agora.” |
| Fato permanente | Refere-se a um estado ou condição que não muda ao longo do tempo. | “O ser humano é mortal.” |
| Ação habitual | Expressa ações que se repetem regularmente, formando um hábito ou rotina. | “Eu acordo cedo todos os dias.” |
| Verdade universal | Indica fatos ou leis naturais que são considerados invariáveis. | “A água ferve a 100 graus Celsius.” |
| Presente histórico | Usado para narrar eventos passados com o objetivo de dar mais vivacidade ou dramaticidade. | “Em 1822, Dom Pedro declara a independência do Brasil.” |
| Presente gnômico | Expressa máximas, provérbios ou generalizações atemporais. | “Quem cedo madruga, Deus ajuda.” |
| Futuro próximo | Refere-se a ações ou eventos que acontecerão em breve, geralmente com o apoio de marcadores temporais. | “Amanhã eu viajo para o Rio.” |
| Estado resultante | Indica um estado que resulta de uma ação anterior e ainda persiste no presente. | “Ele está cansado depois de tanto trabalhar.” |
| Ação no discurso direto | Relata uma fala ou pensamento em tempo real. | “Ele diz: — Eu não concordo com você.” |
| Ação pontual no presente | Refere-se a um evento que ocorre imediatamente ou em tempo muito curto no momento da fala. | “O telefone toca e todos olham para ele.” |
| Presente atemporal em comentários | Usado para comentar ou descrever ações de forma geral, sem ligação a um tempo específico. | “Em histórias épicas, o herói enfrenta desafios.” |
“Ao utilizarmos o presente histórico ou narrativo (denominações provenientes do seu tradicional e largo uso nas narrativas históricas), imaginamo-nos no passado, visualizando os fatos que descrevemos ou narramos. É um processo de dramatização linguística de alta eficiência, se utilizado de forma adequada e sóbria, pois o seu valor expressivo decorre da aparente impropriedade, de ser acidental num contexto organizado com formas normais do pretérito. O abuso que dele fazem alguns romancistas contemporâneos é contraproducente: torna invariável o estilo e, com isso, elimina a sua intensidade particular.”
— Nova Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha & Lindley Cintra
Aqui é eu concordando plenamente com os referidos autores. O aspecto pontual é aceito no presente, porém é uma característica favorável mais do pretérito perfeito do que do presente; a clareza é maior no perfectivo. O que resta ao presente é o efeito dramático e narrativo onde a quebra gerada pela aparente impropriedade (parecer estar errado) acaba por imergir o leitor à cena.
De forma simples, uma pitada de pimenta oferece profundidade ao sabor da comida, mas se fizer a comida só com pimenta… bem, se torna intragável. Assim é o uso do presente momentâneo, histórico e narrativo. Tomarei a liberdade de conceber um outro nome aqui: presente emoldurado, porque esta transmite a função deliciosa na dose.
O presente emoldurado é quando queremos parar o tempo da cena para tirar uma foto e pendurá-la em moldura na parede. Quando sentimos que uma cena merece um destaque, diria apenas 1 situação dessas a cada volume, uma foto mostrando o clímax da obra, tensionamos e tencionamos a narrativa para atingir aquele momento especial. Então o autor congela o tempo intencionalmente e contempla a sua criação através de descrições das ações no presente.
Portanto cuidado: você só estará sendo tosco e monótono se achar que colocar todos os verbos no presente vai causar a imersão do leitor. Imersão do leitor se ganha com o enredo, não com seus tempos verbais, inclusive provocando efeito contrário por causa desse abuso, como destacado na citação acima. A polivalência do presente já provocou inúmeros desastres na literatura brasileira. Não seja mais um.
É por esse abuso que muitos acham que o tempo verbal presente seria uma forma de contar histórias, e não é. Pode até forçadamente funcionar em visual novels, correndo o risco de soar antinatural, mas em webnovels não. O tempo verbal presente pode participar em todas as histórias, inclusive as que contam uma saga já encerrada.
Simplesmente não é o tempo verbal que vai dizer se algo ocorreu há tempos ou se acaba de acontecer contada em tempo real. Quer ver a diferença?
“Naquele dia eu entendi tudo. Por anos pensava que a culpa era minha.”
“Agora eu entendi tudo. Até segundos atrás pensava que a culpa era minha.”
“Agora eu entendo tudo. Até segundos atrás pens… pens… AAAAAAAAAAAA
Entendeu onde realmente está a diferença? Contexto e advérbios! Sim! O verbo possui outra função que não é o de mostrar quando se passa o evento com exatidão. O verbo, na verdade, molda a perspectiva e a continuidade da ação dentro do contexto estabelecido.
O que define a sensação de tempo na narrativa não é apenas a conjugação verbal, mas sim os elementos ao redor: advérbios, estrutura da frase e o enquadramento da cena. Se alguém diz “Agora eu entendi tudo”, há uma noção de passado recente, mesmo usando o pretérito perfeito. Já em “Agora eu entendo tudo”, o presente do indicativo dá um ar de revelação contínua, um estado em que o falante se encontra no momento da fala.
Isso significa que o tempo verbal sozinho não carrega a responsabilidade total pela sensação temporal da narrativa. Ele atua junto a marcadores temporais, ao ritmo da frase e à intenção do narrador para criar diferentes efeitos no leitor.
É aí que mora o verdadeiro poder dos verbos: não apenas indicar quando algo acontece, mas como essa informação chega até quem lê.
Eu não estou dizendo para parar de usar o presente em suas histórias. Quando bem aplicado, ele pode criar impacto, imersão e intensidade, sim. Mas, convenhamos… eu fico puto quando alguém usa garfos pra tomar sopa, sabe? Fique com uma sequência de 3 parágrafos em que utilizei esse tal de presente emoldurado (o capítulo se chama “O caleidoscópio de sangue e suor”):
“Então eu me virei e vi o cabelo dela esvoaçando no ar após arrancar com os dentes parte do pescoço do homem caído.
Eu enxerguei a beleza na sua forma mais primitiva, ali, naquele instante. Pingos de suor e de sangue cintilam em volta daquele ser supremo, formando um caleidoscópio de luzes e terror. Os olhos do ser brilha em vigor pela conquista, mostrando a prova carnal entre seus dentes.
A presa se debateu no chão e, após alguns espasmos banhados em vermelho, ficou imóvel. Em seguida Gabriela cuspiu no chão o que estava na boca, se levantou e me encarou. Eu senti que ela não estava ali. Ela deu respiradas rápidas pelo nariz e me analisou dos pés à cabeça.”
— por Kamo Kronner
| Emprego | Descrição | Exemplo |
| Ação concluída em momento específico do passado | Indica uma ação que ocorreu e foi concluída em um ponto definido no passado. | “Ele terminou o livro ontem.” |
| Ação pontual concluída | Refere-se a um evento que ocorreu de forma rápida ou única em um momento anterior. | “O trem chegou na hora certa.” |
| Sequência de ações concluídas | Usado para narrar uma série de eventos concluídos, geralmente em ordem cronológica. | “Ele entrou, sentou-se e começou a falar.” |
| Fato novo e relevante no contexto atual | Relata uma ação passada que ainda tem relevância ou impacto no presente. | “Acabei de receber uma notícia importante.” |
| Ação habitual ou repetida no passado (com advérbios específicos) | Expressa ações repetidas no passado, mas delimitadas por marcadores de tempo. | “No último mês, visitei o parque várias vezes.” |
| Fato genérico ocorrido no passado | Indica ações ou eventos que ocorreram em algum momento do passado, sem especificar quando. | “Já viajei para Paris.” |
| Ação inicial de uma sequência futura (em discurso direto) | Pode ser usado para introduzir uma sequência futura em narrativas de fala direta. | “Ela disse: — Já terminei, agora podemos sair.” |
Enquanto o presente tende ao imperfectivo na maioria dos empregos, o pretérito perfeito é o tempo mais perfectivo, isto é, que indica ações já concluídas. Não se engane, como já disse milhões de vezes, a ação pode ser concluída logo antes do momento da fala. O que na verdade isso quer dizer é que não há mais preocupação quanto à conclusão da ação, retirando a dúvida sobre a continuidade dela.
Isto pode ser muito confuso, mas o verbo em si não altera a duração de uma ação. Seria o mesmo que um termômetro indicar a temperatura de algo, mas o termômetro em si não alterar a temperatura daquilo. Portanto, fica estabelecido que o evento narrado é totalmente independente do tempo verbal, e, por sua vez, o leitor só tem noção do evento através do verbo. Isso torna o falante o responsável por dizer se a ação foi concluída ou ainda continua.
Essa questão pode ser evidenciada na seguinte situação:
Uma criança estudando com a lição atrasada sem conclusão ao ser indagada, se já terminou de fazer a lição de casa para poder sair pra passear, responde: — Já terminei!
O efeito resultante certamente seria diferente de “— Estou terminando!” ou “— Estou fazendo!”. O estado de avanço da lição em si é “não concluída”, mas o ouvinte/leitor não sabe.
Além disso, o pretérito perfeito simples é predominantemente usado em ações pontuais e concluídas, enquanto sua versão composta (como em tenho feito) indica continuidade ou repetição de ações no passado que se conectam ao presente. Isso pode colocar à prova o aspecto perfectivo desse tempo verbal, porém é largamente utilizado a forma composta para indicar sucesso nas ações, como em “tenho estudado gramática” ou “tenho notado meus erros” que não coloca em dúvida que as ações foram executadas no passado.
Por último, sobre a “sequência de ações” listada na tabela, o cuidado deve ser redobrado na nossa área de ficção. Quando o objetivo é somente relatar um ocorrido fidedignamente, como em um boletim de ocorrência policial, não há por que se preocupar. No entanto, a sequência de pretéritos perfeitos torna monótona a narrativa, assim como o presente.
Para continuarmos com o leitor engajado, a variação entre 1º plano (perfeito) e 2º plano (imperfeito) e entre narração e comentário vai tornar a narrativa mais fluida, natural e interessante o suficiente para o leitor continuar. A máxima é “use todos os tempos verbais”, ponderando quanto à necessidade e efeito esperado.
| Emprego | Descrição | Exemplo |
| Ação contínua no passado | Indica uma ação que estava em andamento em um momento anterior. | “Ele estudava enquanto chovia lá fora.” |
| Descrição do que era presente no passado (presente do passado) | Usado para descrever situações, ambientes ou características no passado. | “A casa era pequena, mas acolhedora.” |
| Ação habitual ou repetida no passado | Refere-se a hábitos ou ações que se repetiam regularmente em um período anterior. | “Quando criança, eu brincava no parque todos os dias.” |
| Ações simultâneas no passado | Indica duas ou mais ações que ocorriam ao mesmo tempo no passado. | “Enquanto ele corria, ela fazia anotações.” |
| Cortesia ou atenuação | Usado para suavizar pedidos ou expressar cortesia, mesmo que não se refira a um passado real. | “Eu queria um pouco de água, por favor.” |
| Expressão de desejo ou suposição no passado | Refere-se a situações imaginadas ou desejadas em um contexto anterior. | “Eu gostaria de ter ido à festa.” |
| Ação interrompida no passado | Indica uma ação que estava em progresso e foi interrompida por outro evento. | “Ele falava ao telefone quando a luz apagou.” |
| Tom narrativo em histórias | Amplamente usado para criar ritmo e continuidade em narrativas literárias. | “Era uma noite escura e chuvosa, e os cães uivavam ao longe.” |
| Expressão de continuidade atemporal | Descreve ações que pareciam se estender indefinidamente em um contexto passado. | “Ele sempre acreditava que tudo daria certo.” |
O pretérito imperfeito é um tempo verbal que expressa ações contínuas, habituais ou simultâneas no passado. Diferente do pretérito perfeito, que indica eventos pontuais e concluídos, seu uso deve ser bem delimitado para evitar incoerências na narrativa.
“O imperfeito faz ver sucessivamente os diversos momentos da ação, que, à semelhança de um panorama em movimento, se desenrola diante de nossos olhos: é o presente no passado.”
Citado no livro de Cunha & Cintra, o texto revela o significado elementar do imperfeito, tendo praticamente os mesmos empregos que o presente, mas no passado.
Por outro lado, seria um exemplo correto quando queremos introduzir uma mudança na ação contínua pela interferência. Esta interferência seria sempre causada por uma ação perfectiva.
Em descrições longas, o uso excessivo pode gerar ambiguidades, especialmente quando várias ações sobrepostas precisam ser diferenciadas. Alternar com o pretérito perfeito pode melhorar a clareza.
O pretérito imperfeito precisa ser equilibrado com outros tempos verbais para garantir fluidez e evitar monotonia ou confusão.
| Emprego | Descrição | Exemplo |
| Ação anterior a outra no passado | Indica uma ação que ocorreu antes de outra já mencionada no passado. | “Quando cheguei à festa, ele já tinha saído.” |
| Conclusão remota de uma ação | Usado para expressar ações concluídas há muito tempo antes de outra referência no passado. | “Eles haviam terminado o projeto antes mesmo de eu começar.” |
| Expressão de causalidade no passado | Relaciona um evento passado que explica ou causa outro. | “Como já estudara o suficiente, conseguiu passar no exame.” |
| Estilo literário ou formal | Utilizado em textos formais e literários, frequentemente com a forma simples do mais-que-perfeito. | “Assim que terminara o jantar, retirou-se para o quarto.” |
| Ênfase em eventos sequenciais remotos | Enfatiza a cronologia de eventos distantes, com uma ação precedendo outra. | “Ele dissera tudo antes que alguém pudesse reagir.” |
| Narrativa com tom reflexivo ou analítico | Usado para adicionar profundidade à análise de eventos passados. | “Ela perceberia mais tarde que já cometera o mesmo erro antes.” |
O pretérito mais-que-perfeito indica uma ação passada que ocorreu antes de outra ação também passada. Seu uso é essencial para marcar anterioridade de forma clara e pode aparecer tanto na forma simples quanto na composta.
O pretérito mais-que-perfeito é uma ferramenta poderosa para estruturar o passado dentro do passado. Seu uso correto garante clareza na sequência dos eventos e evita que a narrativa pareça desorganizada ou sem referência temporal.
| Emprego | Descrição | Exemplo |
| Ação futura certa ou prevista | Indica algo que certamente ocorrerá ou é esperado no futuro. | “Amanhã, viajarei para o interior.” |
| Promessas ou compromissos | Expressa um compromisso ou intenção de realizar algo no futuro. | “Eu farei tudo o que for preciso para ajudar.” |
| Previsões ou suposições | Usado para fazer suposições sobre eventos futuros. | “Você se formará no próximo ano.” |
| Tom enfático ou categórico | Enfatiza a certeza de algo que ocorrerá, dando força à afirmação. | “Eu resolverei isso de uma vez por todas!” |
| Incerteza ou probabilidade no presente | Pode ser usado para expressar dúvida ou suposição sobre o presente (em substituição ao futuro do pretérito). | “Será que ele está em casa agora?” |
| Narrativa formal ou literária | Aparece em narrativas formais, criando uma sensação de solenidade ou continuidade futura. | “Um dia, ele alcançará a redenção que tanto busca.” |
| Contexto jurídico ou regulatório | Muito comum em textos legais ou formais para indicar obrigações ou determinações futuras. | “Os candidatos apresentarão os documentos na próxima semana.” |
| Condicional com subordinadas temporais | Usado em sentenças subordinadas que condicionam ou descrevem eventos futuros relacionados. | “Quando você chegar, discutiremos os detalhes.” |
O futuro do presente do indicativo expressa ações que ocorrerão posteriormente ao momento da fala. Ele pode indicar uma previsão, uma intenção, uma consequência ou até mesmo um fato inevitável. Seu uso é direto e objetivo, marcando um tempo posterior com clareza:
Além da função básica de marcar eventos futuros, esse tempo verbal pode ser empregado para indicar suposições sobre o presente, funcionando como um recurso de incerteza:
Nessa construção, o futuro substitui o presente para sugerir dúvida ou conjectura. Em contextos formais ou polidos, o futuro do presente pode ser usado para expressar ordens e exigências de maneira mais cortês:
Na comunicação cotidiana, esse tempo é frequentemente substituído pelo presente do indicativo ou por construções com ir + infinitivo (“Amanhã vou viajar”), o que o torna menos comum na fala espontânea. Seu uso contínuo em textos narrativos pode criar um efeito artificial ou distante, exigindo equilíbrio para manter a naturalidade da linguagem.
Já na literatura, alguns escritores modernos fizeram a tentativa de incluir o uso em ação posterior a outra no passado:
Este uso se assemelha ao presente histórico, que mostrei antes.
| Emprego | Descrição | Exemplo |
| Ação futura condicionada a outra no passado | Expressa um evento que poderia ter ocorrido se uma condição passada tivesse sido cumprida. | “Se ele estudasse mais, passaria no concurso.” |
| Cortesia ou tom polido | Usado para suavizar pedidos, sugestões ou recusas. | “Você poderia me ajudar com isso?” |
| Expressão de dúvida ou incerteza no passado | Indica algo que talvez tenha acontecido, mas não é certo. | “Ele teria chegado mais cedo se o trânsito não estivesse tão ruim.” |
| Narrativa formal ou hipotética | Aparece em histórias ou relatos que exploram possibilidades hipotéticas no passado. | “Naquela situação, ele reagiria com coragem.” |
| Conjeturas sobre o futuro em relação ao passado | Refere-se a ações futuras em relação a um ponto de referência anterior. | “Disseram que ele chegaria amanhã, mas nunca apareceu.” |
| Expressão de surpresa ou decepção | Usado para relatar eventos que não aconteceram conforme o esperado. | “Eu esperava que ele fosse mais compreensivo.” |
| Tom analítico ou reflexivo | Explora alternativas ou pondera sobre o que poderia ter sido diferente. | “Eu teria feito outra escolha, se soubesse das consequências.” |
Um fato interessante é que o futuro do pretérito representa o mais inatual dos tempos, isto é, descreve ações que estariam totalmente em outra linha temporal, dependendo do contexto. Também é chamado de modo condicional, principalmente quando o momento de evento é após a fala:
“Eu ficaria feliz se você me chamar pra sair.” (O momento de evento é após a fala)
“Eu ficaria feliz se você me chamasse pra sair.” (O momento de evento é antes da fala)
O primeiro exemplo geralmente aparece em fala coloquial, sendo mais formal o uso do futuro do presente:
“Eu ficarei feliz se você me chamar pra sair.”
O seu deslocamento da linha temporal é mais evidenciado com a comparação com o pretérito imperfeito:
“Sem a sua interferência, eu estaria perdido.”
“Sem a sua interferência, eu estava perdido.”
A primeira indica uma possibilidade, outra linha temporal, enquanto a segunda diz sobre fato que ocorreu, um efeito causado pelo que foi dito.
Aqui eu finalizo este artigo! Eu espero que você tenha gostado e tenha sanado muitas dúvidas.
Sei que o assunto parece complexo, mas eu posso afirmar que é só uma questão de costume.
Muito obrigado por ler! Até a próxima!
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